quarta-feira, abril 23, 2008

Diálogo com o ser

Isabel de Carvalho Garcia e Graça Patrão


Numa sessão que contou com a intervenção do Presidente da Fundação Marquês de Pombal, Tavares Salgado, de Isabel de Carvalho Garcia, das Edições MinervaCoimbra, e com a apresentação da obra por Maria Manuela Silva e Inês Braga e leitura de poemas acompanhados
à viola, foi apresentado em Oeiras o livro de poesia de Graça Patrão intitulado "Diálogo com o Ser".

Sobre ele, afirmou Maria Manuela Silva:

"Estamos em crise no mundo da estética e da arte, como no da economia, da política, da educação, dos valores. Mas as crises são momentos, mais ou menos longos, que fazem adivinhar um fim - não são estados. As ordens, os sistemas de valores e de evidências são muitas vezes abalados, mas as forças obscuras não aniquilam a esperança.

Ouvir-se alguém cantar a Vida, chorar de Amor, envolver de Azul o dia cinzentão de Inverno, acordar um verde dormente nuns olhos à distância ou sentir emoção à vista de um laçarote vermelho no cabelo castanho de uma criança, faz-nos parar. É preciso ouvir essa voz. É a esperança no ar!

Neste texto todos somos convocados ao diálogo. Do lado de lá, na folha do livro, monólogos soltos provocam o diálogo. A matéria deste texto é a Vida em seus grandes planos do amor (feito, desfeito, refeito), do arco do tempo (intercortado), do lugar (aqui e nenhures), do ser humano anónimo, mas também de alguém com passaporte e BI validados.

Destas linhas curtas, respiradas, articulando Tempo e Amor, Vida e Cor, Mátria e Pátria , ressai um breve sopro de razão sublinhado pela emoção, numa Viagem da Fantasia vs História. Um Aqui e Agora, que é Lisboa, Coimbra, Utopia - "cidade no mapa que os navegantes procuram". A Vida é esbatida numa paleta de tons e matizes, onde o azul é envolvente e a linha do tempo é quebrada. A verdade é recriação - imagens que se sobrepõem ao real e o recriam. Camões é tão presente como o fluxo dum rio (Tejo ou Mondego) que ainda hoje "corre para o mar".

À boa maneira aristotélica também aqui poesia é mais filosófica que histórica.

Embora o texto, no seu todo, seja evocativo do dia-a-dia simples ("é simples viver", p.50), (mesa de café, uma cerveja – p.47, "casas desconjuntadas", p 52, viagem de comboio), não é um tom coloquial que nele domina. Antes, é amplo o leque de referências culturais que dão o mote (Cf. "Admiro") - desde as letras (D. H. Lawrence, Shakespeare, P. Neruda, F. Pessoa, Florbela Espanca, Saramago, Camões), à música (Beethoven), à pintura (Van Gogh, Vermeer ), à filosofia (Platão, Sócarates, Kant, Hegel), a valores humanos (democracia, liberdade, identidade nacional), ao mito (Prometeu) .

Entretanto há sonho, Arte, "Amor outra vez"!

A leveza da mão na linha escrita é também sentida no traço das gravuras que a acompanha, qual retoque numa verdade que é diáfana, mas que "sustenta" o poeta. Afinal a "Arte é sentir a irrealidade da Vida"(p 52).

Entre as brumas da memória (Parte I in Camões) e um estado de admiração que é êxtase no presente (Parte IV in Admiro), perpassa a brisa da esperança, na busca de infinito (cfr. Jangada de Pedra; Partes II, III - 25 de Abril ; O Amor Outra Vez).

Este é um texto que tempera melancolia ("é inverno ainda" in "Jang. de Pedra) com projecção ("outro dia existirá no espaço um tempo" in Janj. De Pedra), convocando espaços, rostos, sentimentos do passado e dum futuro num presente expectante, espreitando com cautela o destino e acreditando que há "eterno" no sentir e pulsar dum coração humano (cfr. "por amor se desfaz a tristeza dum adeus roubado ao passado" (in "Camões, Eu e o Amor") .

Antes deste, e em sua preparação, outros muitos textos estiveram; alguns nunca antes lidos, nem ouvidos – textos que ainda são de alguém, que não são do domínio público, mas que lhe dão força subterrânea, anónima e atemporal.

Agora este texto tem voz. Deixou de "pertencer" ao "autor" para ficar no fórum público e, assim, quase o podermos usar sem as aspas da referência ou citação.

A Vida é a essência deste texto. O grande tema é o Amor - amor/ideia, amor/perdido, amor/rendido, amor/incarnado, amor/descarnado, amor/ revisitado, amor/mátrio…
Em " Diálogo com o Ser", o "porte- plume" é Graça Patrão, mas o seu protagonista é a humanidade na sua multiplicidade de eus - no cerco apertado do Ser e Tempo*. E Heidegger, em Ser e o Tempo, mostra bem como a projecção para o futuro, o projecto, é a dimensão mais própria do homem.

Amor, afinidade, arrebatamento, este é o registo estético e moral que se vai desenvolvendo ao longo de todo o diálogo, dando forma, umas vezes de modo quimérico, outras mais explicitamente, a um ethos que poderá bem ser o remédio para os males, a arma contra os niilismos.

Há crises no mundo, mas não é o apocalipse.

As crises constituem momentos e não estados.

"Ripeness is all", diz Edgar no final de King Lear**."

Maria Manuela C.C. Marques Silva
(Professora do Ensino Secundário)


* Ref.ª ao tema da Exposição de Azulejo na Fundação Marquês de Pombal, 20 Janeiro 2007
** Danièle Cohen, Que Valores para os nossos dias?, Gradiva, 2007




Também Inês Braga analisou a poesia de Graça Patrão:

"Algumas linhas de reflexão sobre os poemas dedicados por Graça Patrão a José Saramago


No poema “Ode a Ricardo Reis” pode ler-se:
- a concretização do abstracto
- a contradição do sentimento, na linha pessoana (cf. “ (…) e não/ senti-lo [o desespero] é o mesmo que senti-lo e tudo (…)”)
- a recuperação do passado
- a valorização do mundo, tal como ele é (cf. “(…) e tudo/ tem a importância de não ser/ coisa nenhuma (…)”)
- a reescrita da reescrita – Saramago reescreve a História de Ricardo Reis que, na “ficção da ficção”, volta do exílio, do Brasil, e se instala num Hotel lisboeta- o Hotel Bragança – mantendo uma relação amorosa com uma Lídia bem diferente da musa das suas odes.

É sobre esta reescrita de amor que versa a “Ode a Ricardo Reis” – um hino ao amor carnal e desigual do Sr. Dr. Reis, médico e poeta que desenvolve uma relação sentimental com uma empregada de hotel que se lhe oferece numa entrega total. Desta situação resulta uma gravidez indesejada mas corajosamente assumida por esta mulher do povo, analfabeta mas culta, à sua maneira.

- o realce, no poema de Graça Patrão para a valorização do elemento feminino, desprotegido, vítima de um comportamento egoísta de um intelectual/poeta que não se assume plenamente como homem porque não irá perfilhar o seu filho
- a preocupação pelos mais fracos e a valorização das tarefas simples mas úteis, tal como um exemplar desempenho doméstico
- a importância do lado maternal, da mãe solteira, que enfrenta sozinha o peso social para educar a solo o seu filho
- a alusão a uma luta que corresponderá ao acontecimento histórico da revolta abortada dos marinheiros contra o derrube de um sistema político ditatorial. E no poema fica a pergunta relativamente à questão sobre a luta “Quem continuará?”
- a valorização das injustiças e desigualdades sociais, tal como o facto de as crianças chorarem “porque a fome/ é muita!”.

Segundo a linha pós-moderna preconizada por Linda Hutcheon, na narrativa dá-se a voz aos fracos da História e esta é reescrita segundo a visão dos oprimidos. Assim, também, a poética de Graça Patrão pretende reescrever as linhas de uma ficção que coincide com a Vida.

Quanto ao poema “A Jangada de Pedra” é visível:
- Passagem cíclica do tempo e o seu questionamento como realidade existencial (cf. “(…) e já/ passado/ e lento é o tempo na / sua não existência de/ recordações várias (…)” )
- Questionamento da realidade ontológica “(…)Também nas margens suavíssimas/deslizam contornos do/ não ser”(…) o qual remete provavelmente para referências autobiográficas cf: “assim Coimbra que consta/ no mapa/ e um mapa o que é um / nada de papel/ com rigor/ medido. (…)”
- Busca de um tempo e espaço eternos provavelmente simbolizados na “Luz” e em que “cada cidade” será um ponto de referência para os navegantes perdidos
- Segundo a narrativa de Jangada de Pedra em que as fronteiras geográficas se perdem, por força da abertura de uma inexplicável fenda, na poética de Graça Patrão buscam-se pontos de referência, apesar da consciência do seu esbatimento.

As fibras das árvores cintilando eternamente poderão simbolizar a busca do cerne da existência humana, enfim, a procura e reencontro de um “eu” profundo e completo num Universo que desaba sob os pés da Humanidade.

Sobre a poética de Graça Patrão realça:
- a sensibilidade e capacidade de análise e de auto-reflexão sobre o Mundo e o Homem
- a delicadeza da escrita, contida em versos de rima branca
- o ritmo poético e a materialização do abstracto através da metaforização
- o cuidado da selecção vocabular com efeitos combinatórios surpreendentes
- a conjugação entre a expressividade da forma e do conteúdo

Concluindo, a preocupação interventiva, associada à reflexão filosófica, fazem da poesia de Graça Patrão um bem conseguido exercício literário e conduzem o leitor à reflexão e fruição estética."

Inês Braga
12 de Abril de 2008












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